A escuta na psicoterapia

Escutar não é simplesmente ouvir. Ouvir requer simplesmente a capacidade de captar, perceber e processar sons. Qualquer um que não tenha um comprometimento no sistema auditivo, ouve. Escutar é mais do que isso.

Lacan nos adverte de que, quando compreendemos algo, é justamente onde/quando deixou-se de escutar. Quando achamos que entendemos, estamos imbuindo o que ouvimos com sentidos e significados nossos. Escutar, ao contrário, é abrir espaço para o outro em mim. É, ao contrário, não me antever a ele, saturando este espaço, deixando-o livre para ir sendo preenchido. Entender de antemão é estancar esse fluxo. E esse fluxo que diz quem  fala.

É por isso que a escuta do analista não é a mesma escuta de uma conversa entre amigos ou de bar (que podem até ter efeitos terapêuticos e que também são importantes). A escuta do analista é sua ferramenta de trabalho, uma técnica que precisa ser cultivada e aprimorada.

A psicanálise se “assenta” num tripé: estudos teóricos, análise do analista e supervisão. Entre as pernas de um tripé há um espaço. Por meio dos estudos teóricos (tanto do funcionamento dos processos psíquicos, como também de todos os processos históricos, sociais e culturais que fazem parte da constituição subjetiva) o analista é capaz de ouvir para além do que está no texto da fala do paciente. O analista escuta o contexto e o subtexto, o que está nas linhas e nas entrelinhas. Uma escuta que não considera especificidades de classe, raça, etnia, gênero e sexualidade, é, na verdade, uma não escuta. A análise do próprio analista tem como objetivo delimitar um espaço em que o analista cuida de suas próprias questões e desejos para que ele não os transfira para o paciente, e assim, “descontaminar” sua escuta. Por fim, a supervisão visa emprestar mais um par de ouvidos ao analista. Na discussão de seus casos clínicos e de sua prática com um supervisor, o analista pode explorar o que pode estar afetando sua escuta e, deste modo, constantemente aprimorá-la.

A escuta é a maior ferramenta  que um (bom) analista possui. Quem sabe mais de si, porém, por muitas vezes sequer tem acesso/consciência desse saber, é o paciente. No  ato da escuta, o analista  acessa esse saber e o transmite ao paciente, que vai também escutando e se (re)conhecendo.

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